Há profunda harmonia no barulho da chuva. O zinco canta levinho aconchegando os ouvidos. Dias de bolinho de chuva com canela e álbuns de fotografia antiga no colo.

Há amplitude no banho de rio. A água é recanto de lavadeiras e boia feita com câmera de pneu de carro. Era ali meu mundo de conquistas e aventuras.

Há silêncios nas manhãs frias de agosto. A coberta pede escurinho, fogão à lenha convida ao mate com pão quente e cevada na caneca de louça.

Há agradecimentos nos dias de domingo. O almoço de mãe, com temperos misteriosos, na mesa de pedra posta embaixo da parreira.

Há alma de gato na aventura do trilho. Trem vai e passamos a ponte. Trem vem. Escondemos na moita. Só os corajosos conseguiam trancar a respiração e ir.

Há desejo nas tardes de futebol. Não jogava nada. Vendia picolé de Ki-suco em isopor. Circulava com peito aberto falando ligeiro.

Há poesia na lavadeira. Lençóis quarando nas pedras. Multicolorida paisagem. Brincava no poço fundo com uma fronha transformada em rede. Os peixes mordiam pé antes da captura.

Há alma de gato, quando avistou o mundo e outras belezas na cidade.

Há alma entre desconhecidas faces.

Há destreza espreitando-se entre a fome e a alegria do voo.

Há bobeira que agora fica aqui, lembrando insignificâncias da vida.

 

Há felicidade de pinto no lixo.

 

(Trecho do conto ALMA DE GATO)

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